De José Castello
O escritor argentino Ricardo Piglia costuma dizer que um conto relata sempre uma história, enquanto na verdade conta outra. A idéia é incorporada por Bernardo Carvalho em seu romance mais recente, O sol se põe em São Paulo quando, logo no início do capítulo 3, seu narrador reflete: “A literatura é o que não se vê. A literatura se engana. Enquanto os escritores escrevem, as histórias acontecem em outro lugar”.
As idéias de Piglia e de Bernardo ajudam a pensar o caráter duplicado e secreto do conto. Narrativas curtas, compactas, com grande economia de personagens e de acontecimentos, os contos costumam ser tomados, erradamente, como “ficções simples”. Como se fossem, apenas, esboços, ou reduções de romances potenciais. Este engano leva muitos leitores, e também – o que é mais grave – escritores, a desprezar o conto, ou a tratá-lo como uma aventura literária menor.
É através da aparente simplicidade que o conto, em geral, ilude, arrasta e prende o leitor. O conto é, podemos pensar grosseiramente, a arte do mínimo. Com um mínimo de recursos, de elementos, de personagens e de linhas, ele narra uma falsa pequena história para, através dela, abrir um abismo aos pés do leitor. [Continue lendo esta artigo no site o Portal Literal]
O Exercício
Escreva um conto, de no máximo 5 mil caracteres com espaços, que relate uma história enquanto outra, de modo submerso mas ainda assim visível, se desenrola simultaneamente.
Por exemplo: o conto relata os acontecimentos em um jantar formal enquanto, na cozinha, a história mais importante acontece. Mas tudo o que o leitor tem é o relato do jantar, e a segunda história, a secreta, a ele se revela só através de pequenos sinais, que dele exigem um esforço de decifração.
Outro exemplo: o conto relata uma aula de inglês. Ocorre que o narrador não está dentro da sala de aula, mas fora dela. Escondido, por exemplo, atrás da porta de entrada, ou de uma janela. Contudo, mais importante que a aula é o que acontece a esse narrador. Acontecimentos de que o leitor, no entanto, já que tem sua “visão” restrita à sala de aula, recebe apenas pequenos sinais, muitas vezes desconexos, ou mesmo contraditórios.

