Notas sobre a escrita de Ficção Sobrenatural por H.P. Lovecraft


Tradução De João Felipe Brandão Jatobá (texto original)

A razão pela qual escrevo estórias é para dar-me a satisfação de visualizar mais clara, detalhada e estavelmente as vagas, evasivas, e fragmentadas impressões de admiração, beleza, e aventurosa expectativa que convergem a mim através de certos sinais (cênicos, arquitetônicos, atmosféricos, etc.), idéias, acontecimentos e imagens encontradas na arte e na literatura. Escolhi estórias sobrenaturais porque elas melhor se adéquam a minha inclinação – sendo um dos meus mais fortes e persistentes desejos alcançar, momentaneamente, a ilusão de uma estranha suspensão ou violação das irritantes limitações do tempo, espaço, e das leis naturais que eternamente nos aprisionam e frustram nossa curiosidade sobre os espaços cósmicos infinitos que se encontram além de nossa vista e nosso poder de análise. Estas estórias freqüentemente enfatizam o elemento do horror uma vez que o medo é nossa mais profunda e forte emoção, e a que melhor nos leva a criar ilusões que desafiam o natural. Horror e o desconhecido ou o estranho estão sempre conectados, sendo, então, difícil produzir uma imagem convincente do estilhaço das leis naturais ou alienação cósmica ou exterioridade sem projetar a sentimento de medo. A razão pela qual o Tempo tem um grande papel em tantos dos meus contos é porque ele surge na minha mente como a coisa mais dramática e terrível do universo. O conflito com o Tempo me parece o mais potente e fecundo tema em toda expressão humana.

Enquanto a forma de escrever estórias escolhida por mim é obviamente especial e talvez limitada, continua sendo, não obstante, o modo mais persistente e permanente de expressão, tão velho quanto a própria literatura. Sempre haverá certa porcentagem de pessoas que sentem uma ardente curiosidade acerca do mais distante espaço desconhecido, e igual desejo de fuga da prisão domiciliar, que é o conhecido e o real, para estas terras encantadas, cheias de aventuras e infinitas possibilidades, que os sonhos nos permitem vislumbrar, e que florestas profundas, torres urbanas fantásticas e pores-do-sol flamejantes nos sugerem momentaneamente. Estes indivíduos que vão desde os grandes escritores assim como insignificantes amadores como eu mesmo – sendo Dunsany, Poe, Arthur Machen, M. R. James, Algernon Blackwood, e Walter de la Mare típicos mestres deste meio.

Sobre como eu escrevo uma estória – não há somente um meio. Cada um dos meus contos têm um enredo diferente. Uma vez ou outra, eu transcrevi literalmente um sonho, mas normalmente começo com um estado de espírito ou uma idéia ou imagem a qual eu desejo expressar, e a rumino na minha mente até encontrar um bom modo de incorporá-lo dentro de uma seqüencia dramática capaz de ser escrita em termos concretos. Tendo a percorrer uma lista mental de condições ou situações básicas que melhor se adaptem a tal estado de espírito ou idéia ou imagem, e então começo a especular sobre uma explanação lógica e naturalmente motivada ao dado estado de espírito ou idéia ou imagem nos termos da condição ou situação básica escolhida.

É claro que o verdadeiro processo de escrita é tão variado quanto a escolha do tema e a concepção inicial; mas se os enredos dos meus contos fossem analisados, seria bem possível que o seguinte conjunto de regras pudesse ser deduzido o procedimento ordinário. 

1. Prepare uma sinopse ou descrição dos eventos na ordem que eles ocorrem – não na ordem em que eles serão narrados. Descreva com abrangência para cobrir os pontos vitais e motivar todos os incidentes planejados. Detalhamento, comentários, e estimativas de conseqüências são requeridos nesta estrutura temporária.

2. Prepare uma segunda sinopse ou descrição de eventos – desta vez na ordem em que serão narrados (não na ordem em que realmente acontecem), com vasta plenitude e detalhamento, e com notas acerca da mudança na perspectiva, tensão e clímax. Mude a sinopse original para se adequar a estas mudanças caso tal alteração aumente a força dramática ou efetividade geral do enredo. Interpole ou apague acontecimento à vontade – nunca se prenda à concepção original mesmo que o resultado final seja completamente diferente do esperado. Faça acréscimos e alterações sempre que sugerido por qualquer coisa durante o processo de formulação.

3. Escreva a estória – de maneira rápida, fluente e pouco crítica – seguindo a segunda sinopse ou a ordem da narração. Mude acontecimentos e o enredo sempre que o processo de desenvolvimento parecer sugerir tal alteração, nunca se prendendo a nenhum esquema anterior. Se o desenvolvimento subitamente revelar novas oportunidades para efeitos dramáticos ou narrativa mais vívida, adicione o que for vantajoso – voltando e harmonizando as partes anteriores ao novo plano. Insira e apague seções inteiras se necessário ou desejável, experimentando diferentes inícios e finais até que o melhor arranjo seja encontrado. Esteja certo que todas as referências durante toda estória esteja completamente de acordo com o esquema final. Remova o supérfluo – palavras, frases, parágrafos, ou episódios e elementos inteiros- observando a harmonização de todas as referências.

4. Revise o texto inteiro, prestando atenção ao vocabulário, sintaxe, ritmo da prosa, proporção das partes, sutileza do tom, graça e convencimento das transições (cena a cena, da ação lenta e detalhada à ação rápida e esboçada, e vice versa… etc., etc., etc.), efetividade do início, do fim, dos momentos de clímax, etc., suspense e relevância dramática, plausibilidade e atmosfera, e vários outros elementos.

5. Datilografe uma cópia cuidadosamente – não hesitando em adicionar toques finais de revisão onde eles pareçam em ordem.

Geralmente, o primeiro desse estágio é puramente mental – o conjunto de condições e acontecimentos são trabalhados em minha mente, e nunca registrados até ter pronto uma sinopse detalhada de eventos na ordem da narração. Então, também, algumas vezes eu começo de fato a escrever antes mesmo de saber como desenvolverei a idéia – este começo compondo um problema a ser motivado e explorado.

Existem, penso eu, quatro tipos distintos de estórias sobrenaturais; uma expressando um estado de espírito ou sentimento, outro expressando uma concepção simbólica, um terceiro expressando uma situação, condição, lenda ou concepção intelectual universais, e ainda um quarto esclarecendo uma cena definitiva ou situação dramática específica ou clímax. De outro modo, os contos sobrenaturais podem ser agrupados em duas grandes categorias – aqueles em que o maravilhoso ou o horrível é acerca alguma condição ou fenômeno, e aqueles em que é acerca alguma ação de pessoas em conexão com uma condição ou fenômeno bizarro.

Cada estória sobrenatural -particularmente as de horror – parecem conter cinco elementos definidos: (a) algum horror primordial ou anormalidade básica – condição, entidade, etc. – , (b) os efeitos ou alicerces gerais do horror, (c) o modo de manifestação – objetos incorporando o horror ou fenômenos observados – , (d) os modos de reação-medo pertinentes ao horror, e (e) os efeitos específicos do horror em relação a dado conjunto de condições. Ao escrever estórias sobrenaturais sempre tento cuidadosamente alcançar o clima e atmosfera certos, e situar a ênfase onde ela pertence. Não se pode, salvo numa ficção charlatã, crua e imatura, apresentar uma descrição de fenômenos impossíveis, improváveis, ou inconcebíveis como narrativa clichê de atos objetivos e emoções convencionais. Eventos e condições inconcebíveis têm uma desvantagem especial a ser superada e isto pode ser alcançado através da conservação cuidadosa do realismo em cada fase da estória, excetuando aquela afetada pela dada maravilha. Este maravilha deve ser tratada muito impressiva e deliberadamente – com uma “construção” emocional cuidadosa – senão parecerá plana e inconvincente. Sendo o cerne da estória, sua mera existência deve obscurecer os personagens e eventos. Mas, os personagens e eventos devem ser consistentes e naturais salvo quando interagem como a maravilha singular. Em relação à fascinação principal, os personagens devem experimentar da mesma emoção devastante a qual seria experimentada por pessoas similares na vida real. Nunca se esqueça de dar à fascinação a devida importância. Mesmo quando os personagens supostamente deveriam estar acostumados com a fascinação, procuro tecer uma atmosfera de terror e grandiosidade correspondentes ao que o leitor deveria sentir. Um estilo casual arruína qualquer fantasia séria.

A atmosfera, não a ação, é imprescindível na ficção sobrenatural. De fato, tudo o que as estórias fascinantes podem apreender é uma imagem viva de um certo estado psicológico. No momento que tentam apreender qualquer outra coisa, se tornam baratas, pueris e inconvincentes. A maior ênfase deve ser dada à sugestão sutil – ganchos imperceptíveis e toques cuidadosos de detalhes associativos que expressam projeções de estados de espírito e desenvolvem uma vaga ilusão de estranha tangibilidade do irreal. Evite um catálogo trivial de acontecimentos inacreditáveis que não possuem substância ou significado algum além de uma dissimulada nuvem de cor e simbolismo.

Estas são as regras ou padrões que segui – consciente ou inconscientemente – desde que primeiro me arrisquei a uma escrita séria do fantástico. Que meus resultados tenha tido sucesso, é discutível – mas, pelo menos sinto com certeza que se ignorasse algumas das considerações mencionadas nos últimos parágrafos, teriam sido muito piores do que eles foram.

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2 opiniões sobre “Notas sobre a escrita de Ficção Sobrenatural por H.P. Lovecraft

  1. caralho muito fooooda!!!
    alem do cara ser super humilde em relação ao proprio texto, seu método é consistente e o cara fala de uma coisa que sempre pensei q fosse preciso para escrever minhas poesias….descrever seu proprio estado de espirito….
    muito foda mesmo. do caralho!

  2. Apenas uma ressalva: a palavra “estória” não existe em nenhum dicionário da língua portuguesa. É um “aportuguesamento” da palavra inglêsa “story”, mas que não possue correlação em nossa língua. A palavra correta é história (com h e sem e).

    Saudações gramaticais!

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