Fluxo de Consciência


O termo “Fluxo de Consciência” (do inglês, ‘Stream of Consciousness’), foi criado pelo psicólogo William James, apresentado em sua principal obra Princípios de psicologia (1890). William James criou este termo para demonstrar a continuidade dos processos mentais, que não se manifesta fragmentadamente, em pedaços sucessivos, mas num “fluxo” contínuo de pensamentos. A literatura apropriou-se deste termo para denominar as técnicas literárias nas quais há uma tentativa de representação dos processos metais e dos pensamentos dos personagens, tais como ocorreriam em suas mentes.

O crítico literário brasileiro Alfredo de Carvalho alista cinco técnicas fundamentais que podem ser usadas na apresentação do Fluxo de Consciência. São elas o Monólogo Interior Livre, o Monólogo Interior Orientado, o Solilóquio, a Impressão Sensorial e a Descrição por Autor Onisciente.

Monólogo Interior Livre – Representação do conteúdo e processos psíquicos da personagem de maneira parcial ou totalmente desarticulada. Quase não há interferência do autor e o personagem não se dirige a ninguém, somente “pensa”.

Era ir pensando na rotina do dia: banho. Ginástica. O certo seria fazer a ginástica antes mas devia estar com pressão baixa, precisava de água quente para o estímulo inicial. Embora passageiro. ‘Ai meu Pai’. Almoço com a mãe, como estaria ela? Péssima naturalmente. Não esquecer de pedir a chave do carro , dia-sim dia-não Lia vinha pedir aquela chave, por sorte a mãe era vagotônica, não lembraca que já tinha emprestado na véspera. ‘ Queria Deus que Lião não seja metralhada dentro dele’. Faculdade. Fabrício devia estar por lá atiçando a greve. Laça-lo para um cinema, festival Greta Garbo, ih, paixão por essa mulher“. – Lygia Fagundes Telles, As Meninas.

Monólogo Interior Orientado – Também é uma representação do conteúdo e processos psíquicos da personagem, semelhante ao Monólogo Interior Livre, mas, diferente deste, a presença do autor é mais evidente, servindo como guia na apresentação destes conteúdos e processos mentais da personagem. O autor, no Monólogo Interior Orientado, serve de mediador entre a psique da personagem e o leitor.

“[…] graças a Deus que estava em férias, fora ao guarda roupa escolher que vestido usaria para se tornar extremamente atraente para o encontro com Ulisses que já lhe dissera que ela não tinha bom gosto para se vestir, lembrou-se de que sendo sábado ele teria mais tempo porque não dava nesse dia as aulas de férias na Universidade, pensou no que ele estava se transformando para ela, no que ele parecia querer que ela soubesse, supôs que ele queria ensinar-lhe a viver sem dor apenas, ele dissera uma vez que queria que ela, ao lhe perguntarem seu nome,  não respondesse ‘Lóri’ mas que pudesse responder ‘meu nome é eu’, pois teu nome, dissera ele, é um eu, perguntou-se se o vestido branco e preto serviria,[…]” – Clarice Lispector, Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres.

Solilóquio – Difere do Monólogo Interior por sempre pressupor uma audiência ou destinatário da apresentação dos pensamentos da personagem. Quase sempre não possui a interferência do narrador, sendo considerada uma comunicação direta entre a personagem e o leitor. Por ser direcionado propositalmente a uma platéia tácita e imediata, o Solilóquio é mais limitado do que o Monólogo interior. Enquanto este representa o conteúdo da psique da personagem tal como ocorrem, compartilhando a identidade psíquica da personagem com o leitor, no Solilóquio o ponto de vista é sempre o da personagem e tem função comunicar as idéias e emoções que se relacionam com uma trama ou ação.

Não foi seu cavalo que morreu, Jewel”, eu digo. Ele está sentado na cadeira, teso, inclinado um pouco para a frente, com as costas abauladas. A fita do chapéu destacou-se da copa, em dois lugares, caindo sobre seu rosto de madeira, de forma que, baixando a cabeça, ele olha pelo buraco, como através da viseira de um elmo; olha o vale até o lugar em que o celeiro pende contra o barranco, e modela o cavalo invisível. “Você os vê?”, pergunto. Muito acima da casa, emoldurados no céu mutável e espesso, eles pendem em círculos estreitos. Vistos daqui, não passam de manchas – implacáveis, pacientes, portentosas. “Mas não é seu cavalo que está morto.” – William Faulkner, Enquanto agonizo.

Impressão Sensorial – Apresentação das impressões psíquicas trazidas pelos sentidos. Enquanto as outras manifestações do fluxo de consciência ocorrem de forma ativa, isto é, a mente do personagem é ativa, trabalhando em direção de pensamentos abstratos; na Impressão Sensorial a mente é passiva, recebendo impressões concretas dos sentidos.

“Através de átomos de ar azul-cinza, o sol desabava sobre campos ingleses iluminando charcos e poças, uma gaivota branca em uma estaca, o lento singrar de sombras sobre florestas de copas rombudas, e trigo novo, e fluidos campos de feno. Incidiu no muro do pomar, e cada orifício e grão do tijolo ficou pontilhado de prata, roxo, chamejando como se fosse macio ao tato, como se, tocado, fosse derreter-se em ondulações e cascatas de um vermelho lustroso; ameixeiras intumesciam suas folhas, e todos os talos de grama eram unidos por uma chama verde corrente. A sombra das árvores mergulhava, nas raízes, em uma poça escura. Descendo em jorros, a luz dissolvia as folhas isoladas em um só túmulo verde” – Virginia Woolf, Ao farol.

Descrição por Autor Onisciente – Representação do conteúdo e processos psíquicos da personagem através dos métodos convencionais de narração e descrição do narrador onisciente. É uma apresentação dos pensamentos do personagem num estado não-formulado, não falado e incoerente através das descrições do narrador onisciente, que ao fazê-lo, utiliza-se de sua própria linguagem e estilo, não o modo característico do personagem.

O homem nada poderia fazer senão esperar que a primeira penumbra lhe revelasse um caminho. Enquanto isso poderia dormir no chão que, distanciado pelas trevas, lhe pareceu inalcançável. Já não mais atiçado pelo perigo, desaparecera a sagacidade que lhe seria agora apenas um entrave. E de novo o embrutecimento suave o dominava. O chão era tão longe que, abandonando o corpo, este por um instante experimentou a queda no vácuo. Mal porém tocara numa terra que aos seus pés se esquivara, e esta instantaneamente se desencantou em algo resistente, cujas duras rugas estáveis pareciam as do céu da boca de um cavalo, o homem estirou as pernas e encostou a cabeça. Agora que se imobilizara, o ar afiara-se e doía extremamente limpo. O homem não estava com sono mas no escuro não saberia o que fazer da grande vigília. Além do mais não tinha assunto” – Clarice Lispector, A maçã no escuro.

Bibliografia:

Carvalho, Alfredo Leme Coelho de, Foco Narrativo e Fluxo de Consciência: Questões de Teoria Literária. São Paulo: Pioneira, 1981.

Mograbi, Alexandre Nascimento, A Travessia de A Barca Dos Homens de Autran Dourado nas Ondas do Fluxo de Consciência,Centro De Ensino Superior De Juiz De Fora, 2006. (dissertação)

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2 opiniões sobre “Fluxo de Consciência

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