Construindo uma Atmosfera


Atmosfera é a evocação de um ou mais sentimentos obtida através da reiteração de traços destes sentimentos em diversos elementos da narrativa. É uma técnica literária que tem em vista tanto envolver o leitor, quanto tornar mais evidente a relação entre certo sentimento e determinado trecho na narrativa. Uma boa atmosfera prende a atenção do leitor, apelando para suas emoções e fazendo com que ele crie uma conexão emocional não só com as personagens, mas com todo o universo ficcional.

No centro de toda atmosfera existe um sentimento chave, isto é , uma certa emoção que pode definir o tom da cena, de onde as ações principais derivam e como devem ser interpretadas. Este sentimento chave pode ser geral, como medo, amor ou raiva, ou específico, como a impotência diante do destino, esperança de um mundo melhor.

Nem todas as cenas precisam necessariamente utilizar-se da atmosfera, cabendo ao escritor escolher quais trarão este recurso. Se uma cena ainda não foi escrita ou imaginada, o escritor deve decidir se haverá um sentimento que lhe sirva de base para a criação da cena e qual sentimento é este. Com isto em mente, o escritor passa a montar a cena utilizando-se de alguns elementos que reforcem este sentimento central da cena e a escrita deve fluir daí. Se a cena já está pronta, mas não há atmosfera definida, escolhe-se o sentimento chave, e reescreve-se a cena buscando tanto delinear elementos da narrativa que estejam ligados ao sentimento chave, quanto busca-se inserir novos elementos na cena que construam a atmosfera.

Vejamos alguns destes elementos:

Cenários Ressoantes

A escolha do cenário onde se passa a cena é importante na criação da atmosfera. Certos lugares, por si só, já evocam certos sentimentos devido a suas funções dentro da sociedade na qual estão inseridos. O escritor pode utilizar estes cenários para reforça o sentimento da cena. Por exemplo, um deserto nos faz pensar em solidão, insignificância e impotência, enquanto uma pequena sala de um escritório no passa a idéia claustrofóbica de limitação e opressão.

“Andamos longo tempo pelo labirinto de ruas, enfim ela parou. Estávamos num campo. Aqui, ali e além eram cruzes que se erguiam de entre o ervaçal. Ela ajoelhou-se. Parecia soluçar; em torno dela passavam aves da noite.” Noite na Taverna, Solfieri – Álveres de Azevedo

Utilizar o contraste entre o sentimento chave de uma cena e um cenário também é uma maneira válida de reforçar o primeiro, já que isto quebra a expectativa do leitor. O uso desmedido do contraste pode quebrar a impressão de verossimilhança, deixando o leitor dispersor na narrativa.

Clima

O clima, ao lado do cenário, é outro meio simples e efetivo de evocar sentimentos. A chuva pode simbolizar tristeza, o sol, alegria, enquanto uma neblina denota mistério ou ignorância e assim sucessivamente. Assim como os cenários, cada clima tem ligado a si vários sentimentos. Praticamente, existe pelo menos um sentimento para cada tipo clima.

“De repente percebeu que estava ficando muito frio, e que no ponto alto em que se encontrava o vento começava a soprar, frio como gelo. Uma mudança se operava no tempo. A névoa passava por ele agora, em trapos e farrapos. Sua respiração produzia fumaça, e a escuridão estava menos próxima e densa. Olhou para cima e viu, surpreso, que estralas apagadas apareciam no céu, por entre chumaços apressados de nuvem e neblina.” – O senhor dos Anéis: A sociedade do Anel – Livro I – Capítulo VIII – J.R.R. Tolkien

Descrição Seletiva e Sensorial

Existem tantos aspectos a se descrever dum acontecimento quantos são os olhos que o vêem ocorrer. Privilegiar alguns dos aspectos ligados ao sentimento chave da cena permite uma construção efetiva da atmosfera. Porém, privilegiar somente estes aspectos torna satura a narrativa com um só sentimento, o que, na maioria das vezes, não trás um resultado satisfatório.

“Reparando nestas coisas, transpus um curto caminho que conduzia à casa. Um criado tomou o meu cavalo e eu penetrei na arcada em estilo gótico do vestíbulo. Um outro criado de passos furtivos conduziu-me depois, em silêncio, através de muitos corredores escuros e intrincados, para o estúdio do seu amo.” – A Queda da casa de Usher – Edgar Alan Poe

Uma descrição sensorial é aquela que abarca todos os cinco sentidos. O escritor tem uma tendência natural de focar a descrição nos sentidos da visão e da audição, já que estes são as principais e mais frutíferas fontes de informações sobre o ambiente ao cérebro, mas isto cria uma descrição muito limitada da realidade. Ao descrever o mundo ficcional através de todos os sentidos, não é necessário fazer o uso de todos de uma só vez. Deve haver um equilíbrio entre os sentidos, assim como há no corpo humano.

Além disto, outra tendência é de descrever objetivamente. A descrição de um simples portão que só aparece em um parágrafo do texto se torna um verdadeiro artigo científico sobre a composição, massa e densidade da madeira. Enquanto uma descrição objetiva nos permite visualizar (bem até demais) um ambiente, uma descrição sensorial permite uma imersão efetiva no mesmo ambiente, aquela sensação de “estar lá”.

“Kiriákov tira o redingote e entra na sala. A luz verde da lâmpada cai fracamente sobre a mobília barata coberta de forros brancos remendados, sobre as pobres flores, os batentes pelos quais sobem heras… Há um odor de gerânio e formol. Um reloginho de parede tiquetaqueia timidamente, como que embaraçado diante do homem estranho.” – Um Homem Extraordinário – Tchekov.

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3 opiniões sobre “Construindo uma Atmosfera

  1. Parabéns pela iniciativa. Visitarei regularmente este blog. Também sou um apaixonado por literatura.

  2. Encontrar este blog? Fantástico! Parabéns pela iniciativa.

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