Eu lírico


Iniciamos com um soneto de Manuel Bocage:

Soneto XXVI

Importuna Razão, não me persigas;
Cesse a ríspida voz que em vão murmura;
Se a lei de Amor, se a força da ternura
Nem domas, nem contrastas, nem mitigas:

Se acusas os mortais, e os não abrigas,
Se ( conhecendo o mal ) não dás a cura,
Deixa-me apreciar minha loucura,
Importuna Razão, não me persigas.

É teu fim, teu projecto encher de pejo
Esta alma, frágil vítima daquela
Que, injusta e vária, noutros laços vejo:

Queres que fuja de Marília bela,
Que a maldiga, a desdenhe; e o meu desejo
É carpir, delirar, morrer por ela.

Ao lermos este soneto, inicialmente podemos pensar que o poeta está apaixonado. Mas, isto não é necessariamente verdade. Bocage poderia ter escrito esta poesia durante uma manhã tediosa, na qual pensou que a contradição entre razão e amor daria um belo poema.

O fato é que poetas conseguem escrever sobre sentimentos que nunca sentiram, ou que sentiram a muito. Isto porque, tendo um caráter de atemporalidade, a poesia não precisa corresponder a fatos temporais. A verdade ou sentimento que o poeta tenta passar não se restringe a um fato concreto. Antes, é um ideal eterno, que pode ser lido e compreendido em qualquer contexto. E para alcançar este grau de abstração, o poeta necessita de um “narrador” eterno e abstrato, que personifique uma pessoa ideal experimentando um sentimento ideal: o eu lírico.

Pois bem, o eu lírico não passa do fruto de um processo de abstração, através do qual o poeta parte de um sentimento concreto, um fato que seja de alguma maneira real, até um sentimento abstrato. O poeta vai do estar apaixonado à Paixão em si, do ato de amar certa pessoa para o Amor. Na poesia, os sentimentos retratados são abstratos, no sentido em que não mais se relacionam com uma situação temporal, factual, e sim numa abstração de fatos (ou fatos abstratos) que induzem a um sentimento ou conjunto de sentimentos.

E apesar de a poesia poder realizar outras funções, como a narrativa, o objetivo final do poeta é fazer com que o leitor, enquanto lê os versos, possa sentir algo. Este sentimento pode ser o pretendido pelo poeta ou mesmo algo completamente diferente. Sem este processo de abstração, este “fazer o leitor sentir” não se realizaria, pois estaria condicionado a uma série de requisitos que, uma vez não preenchidos, não cumpririam a função poética.

Sem o Eu lírico, poesias não passariam de relatos de situações reais, que mesmo carregadas de emoções, não possuiriam um essência eterna. Na poesia acima, não é Bocage, mas o seu eu lírico que discute com a Razão (na poesia personificada) sobre o amor, até porque o poeta pode nunca ter um conflito interno entra o racional e o emocional. Mas, a ideia deste conflito nos faz perceber a contradição entre estes opostos e sentir o conflito de quem ama.

Algumas referências

http://216.55.136.163/pergunta.php?id=27630

http://www.overmundo.com.br/overblog/eu-lirico-opiniao

http://pt.wikipedia.org/wiki/Eu-lírico

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